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Um Frágil Nascimento Inacabado

Noite escura, cidade grande, rua perdida num ponto perdido de um olhar perdido. A luz é fraca. E o que se pode ver com ela, deseja-se esquecer. O candeeiro, frágil, encolhido sobre si mesmo, balança nas trevas que o envolvem. Corpos nus morrem por baixo dele, como moscas encadeadas pelo brilho mortal do seu encanto. Uma ratoeira disfarçada de tábua de salvação.

Uma dança macabra desenvolve-se em torno de uma jovem mulher. Os homens que a rodeiam, prendendo-lhe os braços e afastando-lhe as pernas, entretêm-se com o seu ventre. Após procederem a uma minuciosa inspecção das suas qualidades alucinógenas, aspirando com sofreguidão restos de fluidos vaginais, de antigas cópulas incompletas, decidem impregnar o interior da mulher com chocolate quente. Na prática, tão quente que derrete tudo o que toca.

Furiosos, pelo erro cometido, os dois homens nus matam-se mutuamente, arrancando bocados de carne à dentada. As suas bocas sujas de sangue vociferam incoerências acerca da existência, ou não, de um relógio que conta o tempo de frente para trás.

Entretanto a mulher, caída no chão sem sentidos, grita e vomita um pequeno feto.

Dispersa pelo chão, a solução de chocolate, agora apenas morna, alimenta as células com uma vitalidade inconsequente, obrigando a sua rápida multiplicação. Braços crescem, afilando-se em pequenos dedos que depressa se cerram sobre si mesmos. A dor do nascimento percorre o corpo frágil de uma jovem rapariga que grita sem saber bem porquê.

Aos seus pés repousa o cadáver apodrecido de um bengaleiro suíço. Nele crescem vespeiros feitos de bolor, cimentados com suor, e temperados com uma mistura muito coerente de ervas aromáticas e canela da índia.

Escrito por Pedro Vieira, Lisboa, 1998
Publicado na revista éthos, nº2 - Março / Abril 1998
Revisão para publicação no site Karnivour, Março, 2002


Pedro Vieira, 1998, Lisboa